O ditador que matou milhões de pessoas de fome, traiu
companheiros e usou seu povo como bucha de canhão... Ainda tem fãs na Rússia,
para quem ele foi responsável pela modernização do país e pela vitória sobre
Hitler
Texto Marina Darmaros, de Moscou, e Wagner Gutierrez Barreira
| 18/10/2013 19h21
No começo do ano, no povoado de Akura, na Geórgia, a
população reinaugurou um busto de Josef Stalin, o ditador que comandou a União
Soviética com mãos de ferro e sede de sangue por três décadas, de 1922 até sua
morte, há 60 anos. A estátua havia sido retirada pela prefeitura em 2010, mas
os moradores resolveram gastar dinheiro do próprio bolso para restaurar a obra
e devolvê-la ao seu pedestal na praça principal do lugar. "Não se pode
esconder a história", disse a moradora Elgudja Bluishvili. "Se foi
bom ou mau, ele agora é parte disso, e nasceu na Geórgia."

A história já deu a Stalin seu lugar: o de tirano cruel. O homem sem escrúpulos
que não se importou em matar milhões de ucranianos, cazaques e siberianos de
fome durante o perío-do de coletivização do campo na URSS, no início dos anos
30. O líder responsável pela morte de 700 mil bolcheviques e militares nos
chamados Processos de Moscou, no qual a maioria das "confissões" era
obtida por meio de tortura. O maquiavélico que fez alianças com membros do
partido apenas para isolar supostos adversários e, em seguida, traí-los e
condená-los à morte. O comunista sem princípios que se aliou ao nazismo com o
pacto de não agressão de 1939. O general paspalho que usou a população russa
como bucha de canhão na Segunda Guerra, na qual a URSS perdeu quase 24 milhões
de pessoas (em comparação, as baixas da derrotada Alemanha não chegaram aos 8
milhões). Por fim, sua morte levou à divisão mundial do comunismo, com
defensores e detratores que romperam com o monolito esquerdista que seguia os
ditames de Moscou.
A volta do culto à personalidade de Stalin nos países da antiga União
Soviética, em especial na Geórgia, onde nasceu, e na Rússia, a capital do
império, não é obra de amadores nem se limita a fãs esparsos do ditador
bigodudo. Ela encontra eco em intelectuais e historiadores. E pode ser vista
nas ruas de Moscou. Desde outubro do ano passado, uma organização civil chamada
Sindicato dos Cidadãos Russos recolhe assinaturas para devolver a Volgogrado o
nome pelo qual a cidade se tornou célebre em todo o mundo: Stalingrado. Ali,
durante a Guerra Civil que se seguiu à Revolução Bolchevique, Stalin conduziu o
Exército Vermelho e conquistou uma grande vitória. Em 1925, quando ele já
exercia plenamente o poder na URSS, o Comitê Central do Partido Comunista
propôs que a cidade ganhasse seu nome - e como Stalingrado ela foi palco de uma
das maiores, mais sangrentas e heroicas batalhas da Segunda Guerra. O nome
perdurou até 1961.

Stalingrado
No site da organização, explica-se que "a posição do Sindicato dos
Cidadãos da Rússia é simples e compreensível a cada patriota". O
abaixo-assinado recolheu na internet 9 780 assinaturas a favor da mudança - e
687 contra. Na véspera das últimas eleições presidenciais, já se acreditava que
o presidente russo, Vladimir Putin, rebatizaria a cidade para atrair eleitores.
Membros do Clube de Especialistas de Volgogrado conseguiram mudar o nome da
cidade por um dia em comemoração aos 70 anos da vitória das tropas soviéticas,
em 2 de fevereiro. "A ideia é fazer disso uma tradição, enquanto não se resolve
a questão da renomeação da cidade", diz o cientista político Vitáli Arkov,
membro do grupo.
Stalin, batizado Iosif Vissarionovich Djugashvili, morreu em março de 1953.
Desde então, a Rússia está na terceira onda de "desestalinização". A
primeira, conduzida por Nikita Kruschev em seu discurso secreto no 20º
Congresso do Partido Comunista da URSS, revelou os crimes de Stalin. Em 1961,
quando Stalingrado foi rebatizada de Volgogrado, o corpo do tirano foi retirado
do gélido mausoléu da Praça Vermelha, onde ainda hoje estão em exposição os
restos de seu predecessor, Vladimir Lenin. Stalin foi enterrado próximo de um
dos muros do Kremlin - ainda hoje é um dos túmulos mais visitados no local.
A segunda onda veio nos anos 80, com a perestroika de Mikhail Gorbachev. O
líder que implodiu a URSS combatia qualquer manifestação de apoio ao
totalitarismo. Um dos pontos altos dessa fase foi o filme Pokaianie
(Confissão), de 1984. Uma crítica alegórica ao stalinismo, a ficção do
georgiano Tenghiz Abuladze foi imediatamente proibida na União Soviética.
Relançado três anos depois, com a abertura promovida por Gorbachev, ganhou a
Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1987.
Por fim, a terceira onda é recente. Iniciou-se em 2010 com a nomeação de
Mikhail Fedotov ao cargo de chefe do Comitê Presidencial para os Direitos
Humanos. Uma das primeiras ações de Fedotov foi declarar guerra ao culto a
Stalin. Ele contava com o apoio do então presidente Dmitri Medvedev para a
criação de um novo projeto de "desestalinização da consciência russa"
a partir de 2011. A confirmação de Fedotov no cargo em 2012 levou os russos,
que antes acreditavam na contrariedade de Putin ao processo, a crer no seu
apoio à desestalinização, apesar de seu silêncio quanto ao assunto.
O silêncio se explica. Até hoje o tirano goza da simpatia de uma boa parcela da
população russa. De acordo com estudo do VtsIOM (Centro Russo de Pesquisas de
Opinião Pública) publicado em abril de 2011, um em cada quatro russos afirma
que sua família sofreu repressão na era Stalin. Mas só 26% dos entrevistados
apoiam a "desestalinização" - e quase metade consideram os esforços
como "tagarelice" e "mitificação". Também cresceu o número
de russos que consideram o papel de Stalin como positivo: de 15% em 2007 para
26% em 2011.
Avanços econômicos
Combater o georgiano, notaram logo as autoridades russas, não era tarefa fácil.
Na primeira vez em que se ensaiou uma reabilitação do tirano, não havia
transcorrido nem dez anos de sua morte. O líder Leonid Brejnev, considerado um
neostalinista, citou Stalin nas comemorações dos 20 anos do fim da Grande
Guerra Patriótica, o nome como os russos chamam a Segunda Guerra. "Não
devemos encobrir os erros, mas também não podemos encobrir os méritos.
Portanto, respeitemos Stalin", disse Brejnev, sob aplausos.
Que méritos são esses? O ex-vice-presidente da Comissão Presidencial Contra a
Falsificação da História em Favor dos Interesses da Rússia Issaak Kalina é
conhecido por defender o uso de livros de história da Federação Russa redigidos
por Aleksandr Filippov, os quais se referem a Stalin como "um
administrador eficiente" e à repressão civil como "custos" do
progresso. De fato, a habilidade como "administrador" é o principal
argumento dos que advogam em seu favor hoje. Mesmo durante sua vida, teve seus
méritos reconhecidos, até pela insuspeita revista conservadora norte-americana
Time, que o escolheu "homem do ano" duas vezes, em 1939 e 1942.
Basta uma análise de alguns números dos dois primeiros Planos Quinquenais
soviéticos, tocados a mando de Stalin. Vale lembrar que o planeta enfrentava a
Grande Depressão que sobreveio ao Crash de 1929 (a URSS era um país isolado,
mas ainda assim os avanços são impressionantes). "A economia soviética,
segundo as mais recentes e confiáveis estimativas, cresceu no mínimo 70% entre
1933 e 1938", registra Richard Overy, professor do King¿s College de
Londres, em seu livro Os Ditadores. Ainda que os esforços soviéticos não tenham
valorizado o consumo de massa, o planejamento econômico dos comunistas foi capaz
de, entre 1928 e 1937, fazer a produção de máquinas crescer incríveis 2 425%. O
número da produção de automóveis foi catapultado de 800 unidades anuais para
200 mil no mesmo período. Muitos fundamentos do estudo da macroeconomia, hoje
matéria obrigatória em cursos de economia, são resultado do trabalho dos
burocratas soviéticos.
"Vinte milhões de pessoas morreram em três ou quatro anos com a Guerra
Civil, e a Primeira Guerra resultou em ainda mais 1,5 milhão de mortos. O país
sumiu do mapa da política mundial, era apenas sangue, chamas, violência",
diz o historiador Aléksandr Vershínin, do Centro de Análises da Governança.
"Stalin surgiu do sangue da guerra civil. E, no lugar do caos, instalou a
calmaria."
Se houve calma, foi a paz dos cemitérios. Não existem números definitivos, mas
fala-se em 8 milhões de mortos de fome na URSS, 5 milhões dos quais na Ucrânia,
por causa da política de industrialização e da coletivização forçada do campo.
Stalin enviava comissários para checar a produção e identificar desvio de
grãos, mas não dava ouvidos às críticas. Quando um funcionário ousou relatar o
que ocorria na Ucrânia, Stalin o cortou, como relata Simon Sebag Montefiore em
Stalin, a Corte do Czar Vermelho: "Fabricar tal conto de fadas sobre a
fome! Achou que nos assustaria, mas não vai funcionar". Em seguida,
sugeriu que o burocrata deixasse o comitê central do partido na Ucrânia e
entrasse para a União dos Escritores, onde poderia se dedicar à ficção. Mas a
fome era real. Tristemente real.
Linha do tempo
1902 - A primeira das sete prisões de Stalin, que usava o
codinome Koba, tirado de um romance
1905 - Atende ao congresso do partido, na Finlândia, onde atrai pouca atenção
1912 - Por indicação de Lenin, entra para o comitê central do partido e adota o
nome Stalin
1913 - Publica um artigo sobre marxismo e questão nacional que vai ajudá-lo a
crescer no partido
1917 - Torna-se editor responsável do Pravda, o jornal oficial dos bolcheviques
1917 - Na Revolução de Outubro, é ofuscado pelas ações de Leon Trotski
1918 - Destaca-se em vários fronts na Guerra Civil. Também vira comissário de
nacionalidades
1921 - Em seu testamento político, Lenin pede que Stalin não ocupe o
secretariado
1922 - Assume o posto que só deixaria morto: secretário-geral do comitê central
do Partido Comunista
1924 - Lenin morre. Stalin e aliados eclipsam Trotski, o sucessor natural na
liderança da União Soviética
1924 - Stalin assume o poder em um triunvirato, ao lado de Grigory Zinoviev e
Lev Kamenev
1928 - Começa o processo de industrialização e de coletivização da agricultura
na URSS
1929 - Stalin manda Trotski para o exílio, acusado de trair a revolução. Ele
seria morto no México, em 1940
1934 - Sergo Kirov é assassinado em Leningrado. Foi o pretexto para os expurgos
no partido
1936 - Kamenev e Zinoviev são julgados por traição, depois de confessarem sob
tortura, condenados e mortos
1937 - Mikhail Tukhachevsky, maior autoridade militar do país, é condenado à
morte por traição
1939 - URSS e Alemanha assinam o pacto de não agressão, que garante aos
comunistas o leste da Polônia
1941 - Com a Operação Barbarossa, a Alemanha invade a URSS e em outubro chega
perto de Moscou
1945 - Tropas soviéticas entram em Berlim e colocam a bandeira comunista no
alto do Reichstag
1948 - Tito, o líder comunista da Iugoslávia, é o primeiro dirigente a romper
com o stalinismo
1947 - Jdanov, membro do comitê central, inicia uma série de expurgos entre
intelectuais e cientistas soviéticos
1953 - Stalin comanda a prisão e morte de médicos, a maioria judeus, que
trabalhavam no Kremlin
1953 - Stalin morre sozinho em sua dacha depois de ser vítima de um acidente
vascular cerebral
1956 - No 20º Congresso do Partido Comunista, Nikita Kruschev denuncia os
crimes de Stalin
A vida íntima do ditador
Certa vez, Stalin perdeu a compostura com seu filho Vassíli, que havia se
aproveitado do sobrenome famoso. "Mas eu sou um Stalin também",
rebateu o filho. A tréplica foi colérica: "Não, você não é. Você não é
Stalin e eu não sou Stalin. Stalin é o poder soviético. Stalin é o que ele é
nos jornais e nos retratos, não você, nem mesmo eu!"

Amor de pai: Svetlana era a
filha querida, mas sofreu com o suicídio da mãe e a ausência paterna. Foi uma
jovem rebelde e renegou o pai quando adulta
A vida pessoal do ditador foi um grande tumulto. Iosif Vissarionovich
Djugashivili nasceu 1878 em Gori, na Geórgia. Vissarion, seu pai beberrão,
trabalhou como sapateiro e costumava espancar a mãe, a lavadeira Ekaterina
(Keké) e o pequeno Soso - ele morreu numa briga e foi enterrado como indigente.
Seus dois irmãos morreram na infância e ele mesmo sobreviveu à varíola. O
menino estudou em um seminário e conviveu com dúvidas sobre a paternidade.
"É possível que Stalin seja filho de seu padrinho, um rico
estalajadeiro", diz Simon Montefiore. O próprio ditador disse uma vez que
seu pai era um padre.
Em 1899, expulso do seminário, tornou-se revolucionário em tempo integral e
assaltava bancos para ajudar o caixa do partido. Adotou o nome Koba, um
personagem fora da lei do romance O Parricida. Foi preso pela primeira vez em
1902 e enviado para a Sibéria. Fugindo da cadeia e voltando a ela, casou-se com
Ekaterina Svanidze, com quem teve um filho, Iákov. Ela sucumbiu a uma
tuberculose, aos 29 anos. No enterro, Stalin disparou uma frase premonitória:
"Ela morreu e com ela morreram meus últimos sentimentos ternos pelas
pessoas".
Stalin, codinome que adotou em 1912, significa aço, ou feito de aço. O viúvo se
casou com um antiga datilógrafa de Lenin, Nádia Alliluyeva. Ele tinha 41, ela
18. Tiveram dois filhos, Vassíli e Svetlana. Nádia se suicidou com um tiro,
dentro do Kremlin.
O primogênito Iákov, oficial de artilharia, foi preso no início da Segunda
Guerra e os nazistas tentaram envolvê-lo numa troca de prisioneiros. Stalin
rejeitou a proposta e seu filho morreu no campo de concentração de
Sachsenhausen. Vassíli foi um jovem desregrado, piloto da aeronáutica. Morreu
em 1962, em decorrência do alcoolismo. Svetlana, a queridinha, depois de vários
casamentos infelizes, fugiu da URSS, voltou, e por fim se estabeleceu nos EUA.
Escreveu duas autobiografias e ficou rica. Perdeu todo o dinheiro e morreu na
obscuridade.
Saiba mais
Livros
Stalin, a Corte do Czar Vermelho, Simon Sebag Montefiore, Companhia das Letras,
2003
Stalin, Triunfo e Tragédia, Dmitri Volkogonov, Nova Fronteira, 2004
Os Ditadores - A Rússia de Stalin e a Alemanha de Hitler, Richard Overy, José
Olympio, 2009